terça-feira, 6 de maio de 2014

Ciganos

Ciganos - um povo sem terra, unido há milênios

05/05/14 às 00:00   |  Por Dayse Regina Ferreira
É tempo de dança, de johurikane divano (evento dos sábios). É tempo dos manushes do mundo inteiro se reunirem no sul da França. É tempo de comprar cigarras, lagartixas e, principalmente a cruz da Camargue e imagens da Santa Sarah.
É tempo de Camargue, onde o cavalo da região, semi- selvagem, é utilizado para cuidar do touro. Um touro camargues que é o resultado de cruzamento de raças locais e resulta ser bem menor do que o touro da Esapanha.
É tempo de visitar Saintes Maries de la Mer e rezar na cripta de Sarah la Kali, abaixo do altar principal na Église des Saintes Maries, dos séculos X e XII. Uma igreja dedicada às santas Marie Jacobe e Salomé, construída no lugar de um antigo santuário, já existente no século VI.
Fortificada por muralhas, procurava proteção dos habitantes locais e às preciosas relíquias das santas, contra os ataques dos sarracenos. Na cripta, reina poderosa a estátua de Santa Sarah, padroeira dos ciganos no mundo.
A famosa cruz de Camargue – uma cruz, uma âncora e no meio um coração – está em todas as casas da região e significa “a minha fé está ancorada no meu coração”. E maio, os ciganos estão em todos os cantos e as mulheres fazem leitura de mão, sempre levando uma medalhinha de Sarah la Kali, com qual abordam aos turistas, tentando vender a medalha, afirmando ser uma tradição.
Tradição mesmo é levar um lenço ou xale – o dicho – para presentear Sarah. Na procissão, todas as mulheres estarão de cabelos descobertos, por terem entregue seus lenços e xales à imagem de Sarah la Kali.
A primeira menção histórica a respeito de Sarah la Kali foi encontrada em um texto escrito em 1521. De acordo com a tradição, Sarah era egípcia e foi para a Palestina como escrava, dizem, de José de Arimatéia. No ano 50 depois de Cristo, ele fugiu da perseguição romana aos cristãos, viajando em uma pequena embarcação acompanhado de Maria Jacobina ( irmã de Maria de Nazaré), Maria Salomé (mãe dos apóstolos João e Tiago) e Maria (mãe de Jesus).
Uma tempestade atingiu a embarcação e o grupo e foi Sarah, guiando-se pelas estrelas, quem orientou o barco até o sul da França. Mas as “Marias vindas do mar” tem outra linda versão. Diz que Sarah la Kali nasceu de família cigana e foi a pessoa principal de sua clã na Rhone (antigo nome da cidade Saint Marie de La Mer).
Foi escolhida sacerdotisa iniciada nos elementos Terra, Água e Ar e assim, só se vestia de preto. Daí o nome de Sarah la Kali (kali em romanês significa preto). Os ciganos sempre tiveram fundamento de várias religiões e dominaram várias formas de ocultismo. Nessa época os ciganos Sinte colocavam a estátua de Ishtar (filha da Lua) para entrar em procissão no mar e receber bênçãos. Uma tradição que é cultuada até hoje. Os registros das tradições orais em Romani conservam as lendas.
Um dia Sarah la Kali teve visões que a informaram da chegada das três Marias, as que presenciaram a morte de Jesus.
Sarah la Kali viu quando elas estavam se aproximando e viu também a tempestade, que poderia afundar a embarcação. Sarah lançou seu lenço nas ondas e caminhou com essa orientação pelo mar, até as Marias.
Fotos: Divulgação

As santas Marias, objeto de peregrinação dos ciganos e turistas
UMA CIDADE DE PESCADORES
Saintes Maries-de-la-Mer é uma pequena vila de pescadores, no centro sul da costa do Mediterrâneo, França, na região de Camargue de Bouches-du-Rhone. Escavações arqueológicas indicam que na verdade a região foi venerada como lugar sagrado já pelos celtas, depois pelos romanos, seguidos dos cristãos e, mais recentemente, pelos ciganos.
Na cultura celta há várias deusas que assumem o papel tríplice – significando as 3 formas de vida: nascimento, crescimento e morte. Uma única entidade carrega a adolescente, a mãe e a anciã.
A tríade, antes de ser usada pelos cristianismo, era base da magia e da religião celta. Baseada nas 3 fases da vida, significa também as estações, que no início eram 3, dependentes da Terra, da Água e do Ar.
A entidade celta tinha uma deusa da primavera – Oppidum Presci Ra. Nos tempos romanos foi substiduída por Artemis, Cibele e Ísis. Já em 542 depois de Cristo, a cidade era conhecida como Saintes-Maries de la Barca e só em 1838 recebu o nome atula: St, Marie de la Mer.

No sul da França, uma das maiores extensões territoriais, para apenas 3 mil habitantes
LUGAR SAGRADO
Hoje a cidade de apenas 3 mil habitantes é lugar sagrado dos ciganos manushes, que chegaram à Europa no início dos anos 1400. Sarah la Kali era a personificação de uma Shakti. Dentro dos conceitos que os ciganos trouxeram do norte da Índia, como Shakti, Sarah la Kali protegia os oprimidos e perseguidos e ainda atrai peregrinos ciganos de todas as regiões do planeta. Que chegam com suas antigas carroças, transporte e moradia.
Os ciganos hoje fazem procissão montados em cavalos camarguenses .São os manushes, antiga ordem de São Jorge, que escoltam a imagem de Sarah la Kali, levando a imagem até o mar, para as bênçãos.
A cidade dista 111 km de Aix-em-Provence e 37 km de Arles. Além de cavalos e touros, tem como destaque na economia local o arroz e o sal ( fleur de sel). Com somente 3 mil habitantes é a segunda cidade de maior superfície da França. A primeira é a vizinha Arles, a maior de todas.

No portal da igreja, o símbolo da cidade, que significa a fé ancorada no coração
DATAS DA FESTA ANUAL
Neste 2014, a grande reuniu dos ciganos em torno das homenagens a Sarah la Kali vai acontecer entre 19 e 24 de maio, com orações especiais todos os dias na igreja.
No dia 24 de maio haverá missa solene às 10 horas e às 16 horas será feita a procissão. As homenagens continuam durante a noite, a partir de 20h30, com orações na igreja e peregrinação dos ciganos.
O grande dia é 25 de maio, com missa solene para as santas Maria Jacobé e Salomé. Depois acontece a procissão cigana até a praia, para a benção no mar .Oito ciganos carregam a estátua da santa pelas ruas até a praia, onde são aguardados por 12 cavaleiros vestidos de preto, empunhando lanças, membros da Ordem de São Jorge, confraria fundada em 1512.
No meio da tarde, 15h30, elevação das relíquias.
Os habitantes locais, os saintois, repetem o evento na terceira semana de outubro.
Claro que durante a semana, culminando com o dia 25 de maio, há jogos, danças folclóricas, muita música e touradas. E no dia 26 a festa continua, desta vez para homenagear o marquês de Barroncelli, amigo dos ciganos, um grande evento pagão.

Ciganos de todo o mundo se encontram em maio, na peregrinação à santa padroeira
UM POVO SEM TERRA, DONO DO MUNDO
Perseguidos há milênios, os ciganos vivenciaram todo o ácido da nova sociedade civil da Europa Oriental, após a queda do muro de Berlim. Nenhum outro grupo étnico no continente europeu provoca tanta incompreensão e ódio. E ninguém chega a uma conclusão de suas origens.
Historiadores, filólogos, antropólogos se perdem, procurando a história dos ciganos. Os franceses os chamam de “bohémiens”, com se a origem fosse a Boêmia. Os ingleses os tratam como “gypsies” – ou egipcíacos - dando por certo que são originários do Egito. Na Grécia são zíngaros, como na Itália.Na Turquia são faraoni e na Hungria, faraoh nepek. Na Pérsia antiga e no Irã de hoje são conhecidos como os índios negros e na Espanha, de gitanos.
Mas eles se denominam de rom, que significa homem pequeno. Ou de rum-ma-xal, que quer dizer, na língua Máhrata, homem errante pelas planícies. Estão no mundo inteiro, formando o único povo que aboliu fronteiras geográficas, que vive apenas debaixo do céu, como diz uma de suas canções.
O que importa é que os ciganos, ao longo dos milênios, provaram que uma nação é capaz de sobreviver em liberdade, sem o Estado. Em suas tendas sempre voltadas as entradas para o sul, dormem com a cabeça voltada para o norte, como as bússolas que, sensíveis ao polo magnético, buscam naturalmente a luz setentrional.
Já foi dito que o homem feliz é o que não tem uma camisa. O povo feliz é o povo livre, sem história, nem chão. Daí os ciganos serem donos de todas as histórias e de todas as pátrias, morando para lá das fronteiras, seguindo suas próprias lendas, escritas e apagadas a cada dia, sempre que um acampamento é levantado, sempre que tudo é desfeito, para seguir viagem com as traquitanas, os tapetes, os tachos de cobre. E toda uma filosofia de vida.
Na Camargue há um museu de “roulotes”, as carroças-casas. O nomadismo faz parte da vida dos ciganos e as carroças são parte da cultura, recebendo decoração colorida, panos bordados e muitos enfeites. Hoje são objeto de desejo de quem pretende enfeitar uma chácara ou um grande jardim.
Quem viajar para a região, deve visitar também Avignon (Cidade dos Papas), Aigues Mortes (cidade fortificada medieval), as ruínas romanas de Nîmes, onde Hemingway passava temporada na época de touradas, e Arles, onde viveu seus últimos dias Vincent van Gogh.
No sul da França, uma das maiores extensões territoriais, para apenas 3 mil habitantes
Disponível http://www.bemparana.com.br/noticia/322584/ciganos-um-povo-sem-terra-unido-ha-milenios?fb_action_

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