sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Resolução do CNE quer garantir acesso de filhos de ciganos à escola.

23/09/2012 13h32 - Atualizado em 23/09/2012 13h35

Ciganos superam preconceito e 



tradições e colocam filhos na escola

Escola de Goiás tem classe exclusiva para crianças de comunidade cigana. 
Resolução do CNE quer garantir acesso de filhos de ciganos à escola.

Elisângela Nascimento*Do G1, em Itumbiara (GO)
Escola criou classe específica para alunos ciganos, em Itumbiara, Goiás (Foto: Adriano Zago/G1)Escola criou classe específica para alunos ciganos, em Itumbiara, Goiás (Foto: Adriano Zago/G1)
Aos 72 anos, o cigano João Amaro Fernandes visitou pela primeira vez a escola onde seis dos seus 13 netos estudam, em Itumbiara, no sul de Goiás. Ele diz que se sente orgulhoso em poder colaborar com a formação acadêmica da família, inclusive a das mulheres. “Estudo é uma maravilha. Eu acho bom demais que eles estudem aqui”, garante. Os netos do cigano estudam na Escola Municipal Dom Velloso, localizada no bairro Santa Rita. A escola tem, desde o início do ano letivo de 2010, uma sala de aula exclusiva para ciganos. Atualmente, são 24 alunos de comunidades ciganas da região que frequentam a escola, que tem 120 estudantes matriculados.



A iniciativa da escola goiana indica que, ainda que timidamente, aos poucos as crianças ciganas vão sendo introduzidas no sistema educacional do país. O tema ainda é pouco debatido. Os ciganos reclamam de preconceito da sociedade, ao mesmo tempo em que não veem muito sentido na educação formal para seus filhos, uma vez que vivem em comunidades fechadas. Além disso, a vida itinerante de muitas comunidades dificulta para as crianças seguirem o calendário letivo tradicional. E até este ano o país não tinha políticas públicas de educação para estas comunidades.
Idoso posa ao lado dos netos que estudam na Escola Dom Velloso, em Itumbiara, Goiás (Foto: Adriano Zago/G1)
O cigano João Amaro posa ao lado dos netos que
estudam na Escola Dom Velloso, em Itumbiara,
Goiás (Foto: Adriano Zago/G1)
Filha de João Amaro, a cigana Marlene Aparecida Fernandes, de 43 anos, foi a primeira a colocar o filho na escola. Ela já tinha vivido experiências ruins em outras escolas. Diz que os filhos não foram bem tratados. "Eu já conhecia as professoras daqui e vi que era diferente das outras escolas. Sabia que a gente ia ser bem tratado", indica a cigana. Foi a única escola que conheci que nos tratou bem", justifica.
Marlene, que é lider da comunidade, acha importante que as crianças ciganas frequentem as salas de aula e incentiva as amigas a matricularem seus filhos na escola. “Sem estudo, hoje, a pessoa não é nada. Tem que ter educação porque, sem isso, a gente não sabe nem pegar um ônibus", diz a cigana.
A grade curricular da sala específica para ciganos – que tem alunos entre 7 e 18 anos de idade - é a mesma das demais turmas. O que muda é a forma de abordagem do conteúdo. “Focamos na realidade deles. Recentemente, fizemos um trabalho, por exemplo, sobre as famílias e as moradias. Um grupo de ciganos montou uma maquete da casa onde eles vivem, ou seja, construíram um acampamento com várias tendas”, esclarece a coordenadora da escola, Tatiana Mortosa.
O objetivo dessa turma especial para ciganos é a alfabetização bem feita, para evitar que os estudantes avancem nas séries escolares com deficiência de aprendizado, argumenta a secretária de Educação de Itumbiara, Maria Auxiliadora Amorim. Ela defende a adequação curricular aos costumes ciganos e elogia a iniciativa dos professores e coordenadores da Escola Municipal Dom Velloso: “É um trabalho maravilhoso”.
Aluna cigana lamenta que foi transferida da turma de ciganos porque avançou uma classe, em Goiás (Foto: Adriano Zago/G1)
Thaís, de 11 anos, saiu da turma exclusiva para 
ciganos e está no 3º ano em turma regular
(Foto: Adriano Zago/G1)
Resolução do CNE
Somente em maio deste ano o governo passou a tratar melhor o tema. Uma resolução do Conselho Nacional de Educação (CNE), homologada neste ano pelo ministro da Educação, Aloizio Mercadante, define as diretrizes para o atendimento escolar de crianças em situação de itinerância, caso de famílias ciganas e que trabalham em circo, por exemplo. Segundo a resolução, "as escolas, públicas ou privadas, devem garantir a matrícula desses estudantes sem a imposição de qualquer forma de embaraço, preconceito ou discriminação".

A resolução ainda diz que se o aluno não tiver certificado ou histórico escolar no ato da matrícula deve ser inserido na série correspondente à sua idade, após uma avaliação das necessidades de aprendizagem. Caberá à instituição desenvolver estratégias pedagógicas para que as crianças se desenvolvam.
Mestre em educação, a assistente social Silvia Régia Simões estuda a educação cigana em sua tese de doutorado na Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul), e diz que a preocupação em matricular as crianças na escola não é um consenso entre os ciganos. Segundo ela, boa parte dos ciganos quer seguir nos estudos, se formar, enquanto outros não reconhecem a importância da educação.
Estudante segue as tradições ciganas e toca acordeon durante eventos na escola, em Itumbiara, Goiás (Foto: Adriano Zago/G1)
Jean Carlo, de 10 anos, segue as tradições ciganas
e toca acordeon durante eventos na escola
(Foto: Adriano Zago/G1)
"Os ciganos precisam da escola e ela tem de ser oferecida, independente de ser usada ou não. Os meninos acompanham o mundo dos negócios e chega um momento que eles precisam saber as operações matemáticas. Quando aprendem isso, eles mesmos querem sair da escola. O menino cigano é muito cheio de vida, não dá para confiná-lo em uma sala de aula", diz.
Frequência escolar
Uma das maiores preocupações da Escola Municipal Dom Velloso é garantir a frequência dos alunos ciganos. Um dos motivos mais comuns para as faltas são as tradições culturais. A principal delas é o casamento, cuja comemoração dura de três a sete dias, período em que os estudantes não vão às aulas.

Para assegurar que os alunos ciganos cumpram a carga horária, há um grande esforço dos educadores em evitar que se falte às aulas. "Isso não acontece aqui", ressalta a professora da turma, Railda de Oliveira. Sempre que necessário, os professores chegam até a aplicar provas nas próprias barracas dos ciganos, montadas com lonas, em vários lotes baldios da região.
Aluno conta que aprendeu a escrever o próprio nome após entrar na escola, em Itumbiara, Goiás (Foto: Adriano Zago/G1)
Durreis, de 18 anos, diz que aprendeu a escrever
o próprio nome após entrar na escola
(Foto: Adriano Zago/G1)
Para entender essas e outras particularidades, a direção e professores da escola começaram a estudar os costumes do povo cigano. “Eles alegavam que não estudavam porque eram vítimas de discriminação. Vimos que não era apenas uma questão cultural, como acreditávamos. Com conversas, visitas à comunidade e muito estudo, fomos conquistando a confiança deles e conseguimos convencê-los da importância dos estudos”, lembra a diretora da escola, Marcela Jabur.
Quando os primeiros ciganos se matricularam, há cinco anos, o rendimento escolar não era satisfatório, reconhece a diretora. “Nossa maior dificuldade era, além das faltas constantes, a diferença de faixa etária deles. A maioria começa a estudar mais tarde, no mínimo, aos sete anos de idade”, explica. Foi então que surgiu a ideia de montar uma sala específica para atendê-los. “Nós precisávamos nos adaptar a eles. Fomos até a Secretaria de Educação e levamos a proposta de uma turma separada, que foi aprovada pelo Conselho de Educação, e tem dado certo”, acredita Marcela Jabur.
Diariamente, famílias de ciganos levam filhos para escola em carroças, em Itumbiara, Goiás (Foto: Adriano Zago/G1)Diariamente, famílias de ciganos levam filhos para escola em carroças (Foto: Adriano Zago/G1)
Futuro profissional
Depois que matriculou o filho Renes, de 12 anos, a cigana Marlene Aparecida se tornou a porta-voz entre sua comunidade e a instituição. Ela estudou pouco e arrisca a escrever apenas algumas palavras, como o próprio nome. Mas sonha com um futuro acadêmico “brilhante” para Renes, o primeiro aluno cigano da Escola Municipal D. Velloso. “Eu quero muito mais do que eu tive para o meu filho. Quero que ele seja um doutor, um juiz, um promotor”, afirma.

A mãe conta que o adolescente começou a estudar há cinco anos e, mesmo morando em um acampamento cigano distante da escola, faz questão de levá-lo, de carroça, todos os dias para as aulas. “Ele só mata aula quando está muito doente ou quando a égua some”, afirma. Sem o animal, justifica, ela e o filho ficam sem meio de transporte.
Assim como Renis, o colega cigano Jean Carlo, de 10 anos, fala pouco, mas mostra-se à vontade na escola, brinca muito e arranca elogios de todos, principalmente, quando faz o que mais gosta: tocar sanfona. “Eu ajudei a fazer a maquete que mostra onde moramos”, orgulha-se, ao lado das colegas Keila, de 10 anos, e Taís, de 11, que também participaram da atividade.
Após aulas, estudantes voltam para acampamento, na Vila Sata Rita, em Itumbiara, Goiás (Foto: Adriano Zago/G1)
Ao lado do marido, a cigana Marlene incentiva o
estudo das crianças (Foto: Adriano Zago/G1)
Única cigana da escola fora da sala exclusiva, Thaís Aparecida, de 11 anos, começou a estudar há cinco anos e agora está cursando o 3º ano do ensino fundamental. Ela sabe da importância em ter sido alfabetizada, mas lamenta não assistir às aulas na sala específica para ciganos. A garota explica que gosta de todos os colegas da escola, mas diz sentir saudades da sala anterior, onde a irmã, de 6 anos, estuda. “Achei muito fácil aprender a ler e escrever”, garante.
Ao contrário de vários colegas, ela não vai à escola de carroça. Usa a bicicleta. Mas o uniforme da escola ganha um toque cigano, graças à maquiagem forte que faz questão de usar, aos acessórios, como pulseiras e brincos grandes, e às botas – calçado que os ciganos homens e mulheres costumam usar.
Durreis Dias Machado, de 18 anos, é o aluno mais velho da Escola Municipal Dom Velloso. Tímido, ele se matriculou há dois meses porque, como outros jovens de sua idade, pretende se alfabetizar para tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH). O motivo inicial, contudo, foi ampliado: “Já estou aprendendo a ler e a escrever. Para eu tirar a carteira, é importante reconhecer as placas de trânsito, mas eu sentia falta também de saber escrever meu próprio nome”.
Mãe de aluno cigano posa ao lado da filha que futuramente será matricula na Escola Dom Velloso, em Itumbiara, Goiás (Foto: Adriano Zago/G1)
A cigana Marli Aparecida posa ao lado da filha que
futuramente será matriculada
(Foto: Adriano Zago/G1)
A cigana Marli Aparecida Fernandes, de 38 anos, só estudou até o 2º ano do ensino fundamental, mas não mede esforços para que a filha Keila, de 10 anos, tenha uma educação formal. Todos os dias ela a leva de carroça até a escola e cuida para que a filha não falte às aulas. “Vejo que as pessoas da escola são carinhosas com a gente e com as crianças. Minha filha já está bem mais sabida depois que começou a estudar”, reconhece.
Também cigana, Sirlene Alves, de 30 anos, tem a mesma opinião da amiga e matriculou as duas filhas, de 8 e 13 anos. A mais nova, Tauana, está sendo alfabetizada e já é motivo de orgulho para a mãe: “É a coisa melhor que aconteceu. Estudo é a maior riqueza que a gente ganha”.
Adaptação cultural
Na avaliação da diretora Marcela Jabur, o comportamento dos alunos ciganos é excelente. Para ela, o segredo do sucesso desse projeto está na adaptação cultural: “Nós aprendemos e respeitamos os costumes ciganos e eles também estão se adaptando aos nossos”.
Marcela cita o cumprimento dos horários como um dos maiores avanços nesse trabalho.

“Eles não são de cumprir regras, mas hoje chegam para as aulas no horário certinho. Outro hábito importante que trabalhamos junto às mães foi o do banho. Eles passaram a tomar banho para vir à escola”, elogia. Como têm a autoestima baixa, revela a diretora, a escola toma alguns cuidados. Um deles é servir o lanche primeiro para a turma dos ciganos. “A merendeira leva primeiro para eles porque, caso contrário, eles se ofendem. Não comem porque dizem que é resto”, conta.
Estudante mostra como é a rotina dele no acampamento, em Itumbiara, Goiás (Foto: Adriano Zago/G1)
Renes, de 11 anos,  mostra como é a rotina
dele no acampamento (Foto: Adriano Zago/G1)
Com o sucesso do projeto implantando na Escola Dom Velloso, a secretária de Educação da cidade, Maria Auxiliadora Amorim, revela que tem planos de ampliar o trabalho com os ciganos. “No ano que vem, pretendemos construir uma nova sede para essa escola e, assim, podermos atender os alunos ciganos e não-ciganos com mais conforto”.
O próximo passo agora, adianta a secretária de Educação, é convencer as mães ciganas a matricular as crianças mais cedo na escola, a partir dos 4 anos. “Essa é a idade recomendada pelo Ministério da Educação. Pretendemos também que os ciganos aceitem que os filhos fiquem na escola em período integral, algo ainda inaceitável para eles”, adianta.
Na Bahia
Em Porto Seguro (BA), o cigano Zanata Ribeiro Dantas, de 40 anos, luta para conseguir uma escola específica que atenda as crianças da comunidade. Segundo ele, no extremo sul da Bahia há cerca de 300 comunidades de ciganos, divididas em cinco acampamentos. Para ele, uma escola própria seria importante para preservar as questões culturais e evitar o preconceito entre os estudantes. Pela tradição cigana, segundo Dantas, as meninas deixam de estudar aos 13 anos, para não ser assediadas.

Enquanto a escola própria não vem, Dantas matriculou os filhos de 11 e 13 anos no colégio estadual regular mais próximo do acampamento. A filha mais velha de 17 anos se casou, teve um filho e deixou de estudar.
A comunidade onde Dantas está é composta por dez famílias e está instalada em um terreno próprio em Porto Seguro há oito anos. Eles deixaram de ser nômades por conta da dificuldade de se adaptar a cada mudança de local.
“Meus filhos e todas as crianças da comunidade estudam. É muito importante porque eles vão precisar trabalhar para sustentar a família e é necessário se capacitar para conseguir um emprego”, afirma Dantas que só estudou até a 3ª série. “Existe uma necessidade de saber ler, escrever. Não gostaria que meus filhos passassem a dificuldade que eu passo, ou pior, caíssem na marginalidade ou no tráfico.”
Desafio
Para a especialista Silvia Simões, garantir o acesso à educação para esse público ainda é um desafio. "Ainda não se sabe qual a melhor metodologia a ser aplicada. Alguns ciganos pedem aulas à distância nos acampamentos, outros querem escolas específicas. Não há um modelo." Silvia afirma que seria ideal formam professores para desenvolvam habilidades para lidar com qualquer tipo de aluno.

Acampamentos de ciganos ficam na Vila Santa Rita, em Itumbiara, Goiás  (Foto: Adriano Zago/G1)Acampamentos de ciganos ficam na Vila Santa Rita, em Itumbiara, GO (Foto: Adriano Zago/G1)
Para as meninas, a situação é ainda mais complicada. Elas costumam ser retiradas da escola depois da 6ª série, são obrigadas a cobrir os joelhos, não cortam os cabelos e muitas vezes são confundidas com mulheres evangélicas. Depois que se casam, geralmente na adolescência, as ciganas são impedidas de estudar.
A especialista é contra a formação de escolas específicas, pois defende a coletividade, seja qual for a etnia do aluno. "Não dá para segregar a minoria e as crianças têm de estar preparadas para as diferenças. A educação tem o papel de fazer as crianças se compreenderem e se respeitarem."
* Colaborou Vanessa Fajardo, do G1 em São Paulo http://g1.globo.com/goias/noticia/2012/09/ciganos-superam-preconceito-e-tradicoes-e-colocam-filhos-na-escola.html

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