segunda-feira, 29 de julho de 2013

MÚSICA E DANÇA CIGANA


MÚSICA E DANÇA

Leshjae quer romper o preconceito com sua arte

14.06.2013
O grupo já se apresentou no Brasil e em Trebisov, na Eslováquia, no festival de música cigana Gypsy Fest

Maceió (AL). Há diversas formas de se buscar pôr fim ao preconceito e à intolerância em torno dos ciganos. Um grupo formado por pessoas que pertencem à etnia, contando com a participação de amigos, escolheu a arte. É por meio da música e da dança que o Leshjae, em Maceió (Alagoas), procura desmistificar muitas lendas falaciosas criadas ao longo do tempo.

O colorido e a magia do grupo que divulga a cultura cigana se destacam
Foto: Cid Barbosa

O líder do grupo, Ruiter Djurdjevjch, explica que a ideia da formação surgiu em 2007, quando chegou a Maceió, vindo de São Paulo para casar-se com sua prima, Anne Kellen. Além dos dois, integram o Leshjae Fábio (Pepe), Neide, Carol, Ingrid, Eliane, Bela, Neide Hanna, Geysa, Sara e Leila. "Hoje, é muito difícil encontrar ciganos que cantem ou componham música no nosso idioma, no nosso dialeto tradicional. Queremos resgatar isso, inclusive, para dentro da casa das famílias ciganas".

Ruiter conta que foi convidado a participar de uma entidade internacional ligada à etnia, chamada Khetanes, graças ao trabalho que já desenvolvia com o grupo Leshjae, sem nenhum incentivo financeiro ou apoio governamental. "No dia a dia, a gente vem tentando desmistificar a figura do cigano que, ainda no século XXI, é difamado a partir de ideias absurdas, estapafúrdias sobre a nossa comunidade".

José Daniel Juarez Rolim, que reside em São Paulo, mas mantém contato frequente com Ruiter, encontrava-se em Maceió, por ocasião da visita da nossa equipe de reportagem. Estudante de Direito, ele denuncia o preconceito no País: "Ele existe e é velado. Se um cigano apresenta uma queixa na Polícia, ela precisa ser averiguada. Isso, na prática, não acontece, e nós não temos uma mídia para denunciar ou um órgão público onde possamos bater na porta e clamar por Justiça. Infelizmente, tem aquela linha de raciocínio: cigano não vota. Não vou condicionar a minha imagem à de um cigano, que é nociva. Só que ninguém conhece os ciganos. Somos brasileiros. Apenas temos nossa etnia cigana, nossa cultura, mas exigimos ser conhecidos e tratados como cidadãos brasileiros. Queremos respeito étnico".

Daniel realiza palestras sobre a etnia à qual pertence. "Infelizmente, somos um milhão e seiscentos mil ciganos ignorados pelo governo. Cada vez que sou chamado para alguma atividade em Brasília, eles dizem que cigano é um povo invisível. Isso não é verdade. Somos pessoas normais, que necessitam de atendimento médico, de todos os direitos que o cidadão brasileiro possui e que nós não temos acesso".

Ele informa que "o Brasil é o único país do mundo a ter tido dois presidentes ciganos, Washington Luís e Juscelino Kubitschek. Mas, são fatos omitidos pela história. Saindo das nossas fronteiras, podemos citar figuras de destaque, como Elvis Presley, Salvador Dalí, Charles Chaplin, Yul Brinner e Greta Garbo".

O estudante explica que o preconceito vem de todos os lados e é difícil eliminá-lo. "Até recentemente, os dicionários traziam o sinônimo de cigano como ladino, trapaceiro, vagabundo e ladrão. Como combater um preconceito que é histórico se toda a máquina vai contra isso?".

Segundo Daniel, há quase dois anos, num programa de televisão veiculado em rede nacional, "o apresentador disse que as mulheres ciganas fedem, além de serem ladras e trapaceiras. Minha mãe não fede, minha esposa não fede, as minhas duas filhas não fedem. Isso ainda não teve nenhum retorno judicial, sequer uma retratação da emissora. Simplesmente, foi ignorado".

Atrocidades

Na Romênia, prossegue Daniel, "ainda hoje, o governo pega ciganas à força e extirpa o útero e as larga na rua suturadas. Se vai morrer de hemorragia ou não, o problema é dela. França e Itália estão expulsando os ciganos de lá. Eles são franceses e italianos. Para onde nós vamos?".

Ruiter cita outra atrocidade. "Há cerca de três anos, fui convidado para participar de um festival de música cigana na Eslováquia com o mesmo propósito, de diminuir a distância entre os ciganos e os não ciganos, o que, na Europa, é complicado. Aqui é velado, o que é mais perigoso, pois você confia numa pessoa e, a qualquer momento, ela pode te apunhalar pelas costas. A primeira notícia que tive lá de uns primos humildes é que um vizinho teve uma filha brutalmente queimada com querosene por tentar se matricular em uma escola de não ciganos. Os pais dos outros garotos pegaram a menina, de apenas 3 anos, em casa e, após amarrarem suas mãos, jogaram querosene nela e atearam fogo. Ela teve 89% do corpo queimado e não sobreviveu".

Injustiças

A intolerância no Brasil também é enorme. Ruiter informa que, há pouco mais de um ano, um conflito entre um cigano e uma pessoa da comunidade em Santo Amaro, Bahia, resultou na morte do não cigano. "Convido vocês a acessarem o vídeo na internet. São 18 minutos de filmagem do acampamento sendo completamente incendiado".

Ruiter frisa que, "durante esse tempo, você não vê uma viatura da Polícia ou dos Bombeiros ou qualquer ambulância chegando. Ninguém se prontifica a acudir aquelas pessoas inocentes, incluindo crianças e velhos. O que se vê é um circo formado, uma coisa absurda que faz lembrar o Coliseu Romano, onde pessoas assistiam às outras pessoas morrendo em agonia e vibrando. É uma barbárie tremenda".

A situação suscitou um questionamento: "Diante de uma realidade dessa, qual o futuro que terá o meu filho quando se autoafirmar cigano? Fico preocupado com isso pois, graças a Deus, tive a oportunidade de estudar, fiz faculdade, me formei, trabalho, tenho o meu sustento, sigo as leis dos brasileiros, enfim, faço tudo que o cidadão brasileiro faz. Porém, o fato de ser o que eu sou, faz com que as pessoas me vejam com indiferença".

Tradições

Ruiter explica que "a sociedade cigana é tradicionalmente familiar, com dois pilares fundamentais, a criança e o velho, que é a experiência de vida. Tudo que você precisa, busca naquela fonte. É o nosso passado, nossa referência, nossa cultura. E a criança é o nosso futuro. É a garantia de que nós, mais velhos, teremos um fim de vida bom, aprazível. A gente percebe que o não cigano não valoriza o velho. Você jamais terá notícia de um cigano colocando um velho no asilo. Ele pode estar com a doença que for, à beira da morte, que o seu filho ou neto estará ali, ao lado dele, em sua casa, até o fim. Entendemos que aquele é o lugar dele".

Sobre o patriarcalismo, Ruiter frisa que "as pessoas nos julgam machistas. Na nossa cultura, o sangue cigano é passado de pai para filho, de filho para neto, de neto para bisneto. Existem casos registrados ultimamente de ciganas que se casam com não ciganos. O filho dessa junção, para nós, não é cigano".

Bullying

De todas as etnias, os ciganos são a mais discriminada. Seus direitos, na realidade, praticamente inexistem. "O Brasil tem 513 anos. Somente há um ano, começou uma discussão conosco para que se desenvolva uma política de saúde. Por que não foi feito isso antes? Somos vítimas de bullying o tempo todo, nas ruas, nas nossas moradias, nas barracas que, pela lei, é nosso abrigo, nossa casa. Apesar de não ter portas e janelas, não pode ser adentrada a qualquer momento", enfatiza Ruiter.

Com relação à escola, o problema é mais grave. "Para que vou deixar meu filho numa escola? Para ele ser enxotado, para fingir ser brasileiro e, somente em casa voltar a ser cigano? Como funciona a cabeça de uma criança que precisa ser duas pessoas ao mesmo tempo? Que adulto será esse que, desde a tenra idade, já sofre uma pressão psicológica para ser o que não é? Isso é tão complexo que as autoridades preferem não discutir. Não é que o cigano só queira reclamar. Infelizmente, as perspectivas de futuro são nulas. A gente vai vivendo enquanto der".

Outro aspecto da cultura que chama a atenção é a itinerância. Ruiter afirma que "isso surgiu por necessidade, por conta da perseguição nua e crua. Aqui no Brasil, o nomadismo ainda existe, mas é regionalizado. São poucas as famílias que vão do norte ao sul do País. Costumam transitar apenas de um Estado para outro e em lugares que já conhecem. Como muitos, fazem trabalhos artesanais ou esporádicos, como na construção civil. Eles têm o hábito de levar a família para aquele lugar onde existe mercado de trabalho".

Daniel revela que já levou proposta a Brasília para deputados e senadores, no sentido de que cada município demarque uma área para permitir os acampamentos ciganos. "Eles poderiam dispor de um espaço de 5 mil metros quadrados. Bastava deixar um ponto de água e um ponto de luz. A gente faz questão de pagar por isso. Existem espaços nas cidades para parques, para circos e outros eventos, pois gera renda, mas nunca para ciganos".

A cada dia que passa, encontrar um lugar para acampar se torna mais difícil. "Quando isso acontece, ao sairmos, temos que deixar uma pessoa, do contrário, ao voltarmos, não vai ter mais aquele espaço. A Prefeitura já murou, já cercou ou já plantou. Em São Paulo, a Prefeitura teve a capacidade, em espaços onde a gente montava acampamento, de plantar árvores a cada metro e meio. Com isso, se quisermos ficar ali, seremos acusados de estarmos cometendo um crime ambiental. Essa é uma maneira velada de querer nos expurgar".

FERNANDO MAIA
REPÓRTER

A alegria supera as adversidades em pleno sertão da Paraíba

Sousa (PB). Ruas sem pavimentação, esgoto a céu aberto, lixo, moradias precárias, pessoas simples. A um olhar menos atento o que pode parecer um bairro pobre do interior do Nordeste é, na verdade, um rancho cigano, de viajantes que se estabeleceram ali há, pelo menos, quatro décadas para fugir das perseguições. "A situação não é das piores, mas também não é boa", diz o presidente do Centro Calon de Desenvolvimento Integral (CCDI), Francisco Soares Figueiredo, 56, o Coronel.

Para Suely Lacerda de Figueiredo, a dança é uma libertação. Ela fez vários cursos e hoje é professora em Sousa Foto: Eduardo Queiroz

Ele reconhece que, além da falta de saneamento, há carência de médico e remédios no posto de saúde, e isso para uma das maiores populações de ciganos sedentárias do Brasil, com cerca de 1.500 membros divididos em dois ranchos, no município de Sousa, a 429Km de João Pessoa. Pedro Alves Cabral, 56, o Dão Cigano, queixa-se de que os políticos só aparecem em período pré-eleitoral para fazer promessas. Depois se segue mais um período de silêncio e abandono.

Coronel conta que o nomadismo acabou porque a hostilidade era muito grande em cada cidade na qual arranchavam. Mas, com o sedentarismo, foram se envolvendo com a cidade e os costumes foram se perdendo. Tanto que hoje é difícil vê-los trajados a caráter, a não ser em ocasiões festivas porque, se tem uma coisa que cigano não deixa de fazer é festa. Eles adoram tocar, cantar e dançar. Uma das datas mais comemoradas é o Dia Nacional do Cigano, 24 de maio.

Foi exatamente com o objetivo de garantir a continuidade dessa tradição que Suely Lacerda de Figueiredo, 26, filha do Coronel, fez vários cursos e hoje é professora de dança na Escola Demonstração de Sousa. Além das aulas, ela se apresenta em eventos e sonha montar uma companhia. "Dança significa alegria, libertação da alma. Quando estou triste e começo a dançar, esqueço de todos os problemas. Ensinar é gratificante. Antes, eu me sentia rejeitada. Hoje, me sinto amada", resume.

Seu irmão, Francisco Lacerda de Figueiredo, 38, conhecido como Bosano, também fez alguns cursos e hoje tem uma equipe que trabalha na construção civil. Mas conta que, até adquirir clientela, enfrentou muita dificuldade, devido ao preconceito por ser cigano. Também fez cursos de avicultura, cria algumas aves e trabalha como artesão.

Nômades, os ciganos viviam de trocas, um costume que foi se perdendo ao longo dos anos. Hoje, a principal fonte de renda está nos pequenos negócios, mas ainda existe uma tradição de trabalho artesanal, dificultada pela falta de recursos para aquisição de equipamentos e matéria-prima.

Rezar, cortar baralho e ler a mão são outras atividades mantidas pelos ciganos de Sousa, apesar das mudanças impostas pelo sedentarismo. A atividade é considerada como dom natural, que não se ensina e não se aprende, como no caso de Socorro Vidal, 55; e Luís Costa, 76. Ele planta, no quintal da sua casinha de taipa, ervas medicinais.

Ronaldo Carlos, 62, liderança cigana no Rancho Otávio Maia, queixa-se do preconceito e da carência de políticas públicas. Conta que, em 1990, percorreu todas as escolas da cidade em busca de vagas, mas foi por intermédio de um antropólogo que chegou ao secretário estadual de Educação, que amenizou o problema. Ele, que nunca frequentou a escola, mas sabe ler, escrever e as quatro operações, destaca que os ciganos gostam muito de estudar e são bons alunos.

João Viana de Alencar, 62, o Eládio, chefe da comunidade Manoel Valério Correia, reclama de que, entre os ciganos, tem gente capacitada que não tem oportunidade por causa do preconceito: "Até o Cartório discrimina. Muitos ciganos não têm registro de nascimento e isso dificulta o acesso à escola e ao emprego. Cidadania é um direito de todo brasileiro". Outra liderança cigana de Sousa, Cícero Romão Batista, o Maninho, conta que tem cobrado melhorias que vê acontecer em bairros vizinhos, mas não chegam aos ranchos.

MARISTELA CRISPIM
EDITORA DE REPORTAGEM  Disponível em http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=1279187 acessado em 29/07/2013

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